Thelma Guedes

A palavra é osso

a palavra é osso
poço de nada
faço, faço, faço
tudo osso

o que encontro
enterro, escondo, refaço
apago o rastro inteiro
fujo feito cão medroso

depois volto
e sem saída sem gosto
começo tudo de novo

caço a letra, fuço, cheiro
a cara da coisa
que é outra no meu sinuoso fosso

escrever é osso
e borro, borro, borro
só barro e borra encontro
e isso é pouco muito pouco

berro por ela e não ouço
mordo, mordo, mordo o seu pescoço
a poesia é osso
caroço,
amendoim, noz, tremoço

um centro duro, ponta, ponto, nó, laçada
buraco escuro
boca seda, azeda, escanzelada

que me engole vivo
e depois me cospe morto

 

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Esta ideia do “poeta atrás do osso da palavra” é o ponto central da primeira parte do livro Atrás do Osso. O poema acima é o segundo da seção “do cão e do poeta”.

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