Thelma Guedes

Do cão e do poeta

I

sou cão magro
danado
atrás do osso da palavra

grudo na canela dura dela
e invento

pulguento, triste, remelento
quanto mais ela me chuta
mais quero
mais aguento
mais tento

II

a palavra é osso
poço de nada
faço, faço, faço
tudo osso

o que encontro
enterro, escondo, refaço
apago o rastro inteiro
fujo feito cão medroso

depois volto
e sem saída sem gosto
começo tudo de novo

caço a letra, fuço, cheiro
a cara da coisa
que é outra no meu sinuoso fosso

escrever é osso
e borro, borro, borro
só barro e borra encontro
e isso é pouco muito pouco

berro por ela e não ouço
mordo, mordo, mordo o seu pescoço
a poesia é osso
caroço,
amendoim, noz, tremoço

um centro duro, ponta, ponto, nó, laçada
buraco escuro
boca seda, azeda, escanzelada

que me engole vivo
e depois me cospe morto

III

A palavra
desnudo, desinfeto, desarranjo
deixo no osso mesmo
tiro pompas
rendas, pulseiras, adereços
delicadezas de senhorinha
desenfeito, despenteio, desalinho
arranho o casco e alvejo
atiro a seco
rota de bala retilínea
atiro na linha e mato
a ratazana negra, tísica, esquálida serpentina
jogo ideias no abismo
alvoroço de minha língua sibilina
machuco a palavra doce
manhas e sabor eu evito
estico, rasgo, desaprumo, desarrimo
depois me contorço
minhoca-cordão-liga-trança
unguento
dou corda, aumento e arrebento
monto desmonto o mundo
cuspo em cima
piso, dou na cara e sopro
um beijo, um bafejo
sangue, solfejo
osso-costela derradeiro
acabo e pronto
a palavra está viva

frágil e úmida nasce
fresca erva eva pecadora
minha única ambígua amiga
salva-me salva-me, salvadora

VI

a culpa pela poesia
que escapa do rumo
e tira da rotina o arrimo

é do cão que ladra
acuado dentro da alma
arranhando impaciente
essa frágil casca minha

a culpa pelo amor
descabido que em suspiro vaza
das entranhas
e me lança ao susto e ao perigo
é de novo dele

desse cão selvagem
que uiva de dentro
com a violência
de um feroz premido

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