Thelma Guedes

O verbo do escritor é escrever

Desde muito pequena, logo que aprendi a ler, eu já comecei a sentir o impulso de escrever. A leitura e o prazer que ela me proporcionava me levaram a desejar ser uma escritora. Eu era uma leitora voraz. Lia tudo que caía nas minhas mãos. Na coleção “O Tesouro da Juventude”, que havia na casa dos meus pais, numa edição bem antiga, eu tive meu primeiro contato com alguns grandes escritores da literatura universal, como Shakespeare, Dickens, Alexandre Dumas, Victor Hugo, Dostoievsky, por meio de resumos de suas obras. Na escola, comecei a ler os autores brasileiros.

Diante de Machado, Alencar, Érico, Cecília eu também me tornava uma perplexa. Era tomada completamente por essa outra vida; uma vida imensa, que guardava e transformava a minha, tão pequena e comezinha, a do dia-a-dia entre a escola e a minha casa. Com a fantasia dos livros fiz do meu simplório cotidiano uma emocionante aventura.
Mas foi quando li um conto de Clarice Lispector (Legião Estrangeira) que fiquei absolutamente boquiaberta, extasiada e tomada pela mágica da literatura. Como é que alguém podia provocar tanta coisa na gente só com papel e lápis? Que poder tinha aquilo! Eu fiquei alucinada! A partir daquele dia – eu devia ter uns quatorze anos -, não tive mais dúvidas de que eu faria tudo para ser uma escritora no futuro. Meu sonho secreto era ser a Clarice
Assim, a literatura faz parte da minha vida desde que me entendo por gente. Escrever é uma necessidade minha vital. Como respirar, comer, amar.

UNIVERSIDADE
Por muito tempo eu também fui fascinada pelo teatro. Cheguei a começar o curso de atuação na FEFIERJ (hoje UNIRIO). Quando me mudei para São Paulo, acabei desistindo do teatro e decidi me dedicar ao projeto literário. Prestei vestibular e entrei no curso de Letras, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Este curso sistematizou e contextualizou as minhas leituras, fornecendo ferramentas para eu amadurecer o exercício da escrita. E comecei o projeto de meu primeiro livro de contos. Quando estava cursando a pós em Literatura Brasileira e trabalhando como divulgadora da Editora da Universidade de São Paulo, surgiu a oportunidade de lançar meu primeiro livro de contos, Cidadela Ardente, pela Ateliê Editorial.

DO LIVRO PARA A TELEVISÃO
Nunca pensei em escrever para a televisão. Fui traçando meu caminho fora da televisão, com o objetivo de ter uma carreira literária e na academia. Eu já fazendo o mestrado em Literatura Brasileira, e trabalhando na editora da USP, quando fiquei sabendo sobre a oficina de roteiro da TV Globo. Me inscrevi e fui selecionada. Foi nesta oficina, coordenada por Flávio de Campos, que eu aprendi toda a base da teledramaturgia. Coincidentemente, no dia em que lancei o meu primeiro livro de contos, Cidadela Ardente (27 de novembro de 1997), fui chamada para assinar contrato com a emissora.

A partir de então, como roteirista, escrevi para diversos programas: AngelMix, Turma do Didi, Sítio do Picapau Amarelo; e colaborei nas novelas Vila Madalena, de Walther Negrão; Esperança (na segunda fase, com Walcyr Carrasco); Chocolate com Pimenta e Alma Gêmea, ambas do Walcyr. Depois, fui convidada pelo próprio Walcyr para dividir com a Duca a autoria da adaptação do remake da novela O Profeta, de Ivani Ribeiro. Daí nasceu uma linda parceria que rendeu, na sequência, as novelas Cama de Gato, Cordel Encantado e Joia Rara.

LINK NOVELA E LITERATURA

Em 2014, eu e Newton Cannito tivemos a ideia de montar a Casa do Autor Roteirista, em Paraty, com uma extensa programação de debates realizado durante a Flip. O objetivo da Casa era valorizar a criação literária em toda e qualquer mídia. Porque  os livros, o cinema, a televisão e o teatro são apenas diferentes suportes daquilo que realmente importa, que é o trabalho criativo do escritor.

Queríamos promover o debate sobre a criação literária trazendo escritores que também são  roteiristas. Para isso, convidamos autores roteiristas de televisão e cinema para uma reflexão crítica das relações de sua literatura com as várias mídias. Confira:


Eu costumo dizer que o verbo do escritor é escrever. Eu sou escritora. Adoro escrever. Para alguns gêneros eu me preparei mais, tenho mais bagagem, técnica, exercício, traquejo. Deve ser como para um nadador a diferença entre nadar em piscina, ou no mar, no lago, na lagoa. A água e os princípios da natação são os mesmos. O que muda é a técnica que você vai usar em cada contexto, ambiente. Para mim foi tranquila a passagem do livro para a televisão, porque tive um bom treinamento técnico na oficina de dramaturgia da TV Globo.”

Escrevo livros e novelas para fazer as pessoas sonharem. Mas muitas vezes, ao ver meu trabalho impresso ou no ar, quem acaba sonhando sou eu.

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