Thelma Guedes

Fragmentos de uma coisa finda

a fábula

Se era bonita? Não sei dizer. Talvez não passasse de uma mulher comum. Cotidiana, como tantas que vemos flanando pelas ruas, como folhas soltas, sem destino. Sentando-se casuais em bancos ensolarados de jardins públicos. Subindo e apertando-se sisudas em ônibus abarrotados. Mastigando sanduíches de queijo ou lambendo selos com as línguas lançadas inteiras para fora das bocas ingenuamente oferecidas.

De Luísa, lembro-me bem dos olhos grandes e verdes, da pele morena, firme, lisa e sem pelos, dos seios altos, bicos salientes sob a blusa, apontados para cima, como uma artilharia pesada que desafiava meu olhar covarde de jovem tímido. As duas pernas eram sólidas, plantadas sobre a terra como raízes de uma árvore antiga e matinal. O rosto era fino, mas o sorriso franco alargava as bochechas, arredondando-o e fazendo-o lembrar uma maçã suculenta que eu tinha vontade de morder. Mas o que me enlouquecia mesmo era quando as pontas dos incisivos mascavam os próprios beiços, numa deliciosa e delicada antropofagia.

Mas que ninguém se iluda com a aparente banalidade desta Luísa que surge assim, andando, comendo, lambendo selos e mordendo os rebordos grossos da boca carnuda. Pois, na memória recuperada de meus atavios e emboscadas, onde tantas imagens à míngua já feneceram, o sorriso de Luísa sobrevém sempre como o primeiro susto, a primeira golfada de ar e vida que embriaga um recém-nascido. E, depois de ter o peito inflado e pleno deste sopro, o que me vem à mente, quando penso nela, é um bico de seio gordo de mãe bondosa dentro da boca, para a primeira investida do leite jorrado na goela virgem. O amor primeiro, num grito grave de espanto e de ar, de leite doce vindo do mamilo vermelho, dando vida e sabor ao homem, tornando válida e possível sua passagem pelo mundo, como um carimbo, um visto no passaporte invisível. Porque do amor, Luísa foi as boas-vindas.

E essa visão se renova a cada dia. Talvez para restaurar o gosto e o sentido da existência, como uma história que deve ser contada dia após dia, para que o Universo mantenha-se coeso e respirando pacificado. Eu preciso de Luísa até hoje. Juro que preciso.

Sob a árvore grande que se vê nesta foto amarelada, tivemos o nosso primeiro encontro. E o último também foi aí. A árvore tinha mais folhas no passado, mas foi depenada pela poluição. Não, não estamos no retrato. Anos depois, fui até lá com a minha kodak vagabunda, para registrar a única testemunha da coisa finda. No tronco frondoso, ficou uma inscrição dos nossos nomes, no meio de um coração mal desenhado. Nunca tiramos uma foto juntos. Nunca.

Um dia, Luísa simplesmente me deixou. Foi embora, sem qualquer explicação. E eu a odiei por isso. Hoje agradeço a ela. Se não tivesse ido, eu não a amaria tanto.

E pode parecer estranho, mas também nunca fomos para a cama. O amor não passou de beijos, da língua de selos dela colando no céu afogueado e incrédulo da minha. Um gosto de leite e cola que não vou esquecer nunca. O meu primeiro amor teve o sabor lácteo e sinuoso de uma língua com gosto de goma arábica.

Estou cansado, quero beber um pouco. Não, não estou chorando. Só preciso beber um pouco mais. Por que não fiz amor com a mulher que mais amei na vida? Não sei dizer. Hoje ouvi uma música que diz “o teu olhar melhora o meu”… Pois era assim que eu me sentia. Só queria que Luísa me olhasse para limpar os meus olhos com os seus e melhorar o que eu era.

Alguns anos depois, poucas horas antes do meu casamento, o telefone tocou. Era Luísa. Um fio de voz débil, opaco, tremuloso proferiu o nome sagrado do amor, identificando-se como ela. Não acreditei. Suspeitei que fosse uma amiga fazendo uma brincadeira. Exigi provas de que era ela. Depois de dizer com esforço que precisava me ver num determinado endereço, a voz fantasmagórica sumiu, como se tivesse sido engolida pela sua própria fraqueza. Enquanto eu olhava minha mão – tão precária como a voz que acabara de ouvir – a descer abobalhada com o fone ao descanso, fui assombrado por uma esperança embusteira, que se atreveu para fora do meu coração. Era verde e viva, e me dizia que talvez aquele amor ainda fosse possível. Este desejo secreto ardeu sob o corpo frio, me devolvendo à vida. Dele nasceu um apetite corajoso que me faria capaz do ato mais repreensível a um homem de bem: se Luísa voltasse, eu mandaria tudo para o inferno. Abandonaria a noiva no altar, enfiada no vestido branco absurdo, cheio de laços, babados, bordados caros e inúteis. Deixaria a festa no clube cafona, o bolo ridículo de três andares, os padrinhos babacas e seus fogões, geladeiras e aparelhos de jantar de 60 peças. Eu teria jogado tudo pelos ares, se meu reencontro com Luísa não tivesse sido como foi.

Eu vou contar tudo. Mas antes, quero mais uma dose. Vou fazer um brinde para Luísa. Em nome desse nome que nunca saiu da árvore, que nunca saiu de mim. E olha só, vou fazer um poema. Um prosador bêbado vai fazer um poema embriagado: O amor é urdidura de uma rima imperfeitíssima, pois quanto mais se esforça, mais desarruma a vida. Que poema ruim. Sou um poeta de merda.

No final da melodramática cena, o esforçado e desamparado prosador desaba poeticamente sobre a mesa. E sobre ela, ronca.

a foto

No meio da praça, está cercada pela vida agitada de uma grande cidade. De um grande mundo. Ainda assim, apesar de tanta gente e alvoroço ao seu redor, revela uma solidão imensa e comovente. É alta, encorpada e bem sólida. Concreta até. Plena e complexa demais para a compreensão de um homem desamparado como eu. E me pergunto: por que estará ela no mundo? Bela e acomodada, a matrona é soberana, assentada sobre a Terra, transpirando muda sua serena majestade vegetal. Como o amor. Uma vitalidade quase eterna, margem oculta da seiva densa, movendo-se como sangue dentro do tronco grosso, de marrom vivo. Um ser vivo. Como o amor. Mas imóvel. Como alguns amores. Ela está lá, estacionada numa praça qualquer de uma cidade humana. É frágil, já que depenada assiduamente pelo gás tóxico dos automóveis que passam por ali todos os dias. Uma testemunha muda, com seus galhos avermelhados, sem os verdes das folhagens que não possui mais.

Uma guardiã outonal dos segredos matutinos de amantes tontos e arrebatados. Adornada como mocinha vaidosa pelas oferendas desses moços tolos que, sob sua sombra carnuda, trocam eternas e impossíveis juras. São brincos e pulseiras os corações flechados por setas amorosas, cruzando nomes e destinos. A pobre anciã robusta deixa-se ferir por canivetes que esculpem inscrições banais de amor. Seu destino simplório é o de uma alcoviteira cansada e desiludida. Mas sempre complacente e gorda com os amantes do mundo, pobres meninos que creem ser os seus amores uma grande e única novidade sobre a Terra.

Lá estão meu nome e o nome de uma moça. Eternizados em sulcos escavados pela letra miúda e incerta de um adolescente. A árvore é uma sibipiruna, mas parece mais o baobá de um conto infantil que li há milênios. E eu, o cruel prosador, arrisco um poema tímido e inconveniente, em versos trôpegos, quase singelos. Epifania besta e merencória: o amor é planeta tomado por infantis baobás, porque baobás e amores não morrem jamais.

o homem

A mão trêmula e solene de um homem adulto tateia o tronco da velha sibipiruna. Um final de tarde ensombrado, num outono morno do presente, recebe a mão triste que procura cegamente sobre a casca dois nomes próprios enlaçados por coração tosco. A mão encontra os nomes. O homem suspira aliviado, ao ver que ainda vivem os hieroglifos modestos de seu passado. Salvaguardados pelo impiedoso tempo, que um dia não poupará sequer a seiva magnífica dos vegetais frondosos. Aliviado sim, como se a permanência dos nomes tornasse aquele amor inacabado. Ou eterno, quem sabe? Afinal, o que distingue um epíteto do outro?

Sorri nostálgico porque os nomes estão lá. Fecha os olhos, aspira profundamente o ar pesado da praça. Concentra-se na busca de um dia real que foi seu há mais de vinte anos. O cheiro de pipoca, os risos das crianças, os sussurros adocicados de namorados mesclam-se nos ouvidos da busca. E levam o homem a algum lugar.

Ano? 1980. Ele tinha 17 anos e fazia pré-vestibular. Ela tinha 30 anos e trabalhava no correio, colando selos. A marcha a ré no tempo esbarra nesse jovem imberbe, cujos olhos brilham, cheios de desejo e determinação: vai mudar o mundo, claro. Menino bom e ingênuo, dotado de uma vivacidade contagiante – margem oculta da seiva densa, movendo-se como sangue vivo sob seu torso moreno.

O homem velho tenta respirar o ardor que se consumiu desde o passado. Fervor que está perdido nele mesmo ou num lugar fora do seu corpo? Ele não sabe. Teriam sido os olhos de uma mulher a engolirem a chama? Talvez. Foram os de Luísa? Pode ser.

O moleque alegre e inexato daqueles dias de ontem sua muito. Acalorado por um verão alegre e barulhento, e pelo abraço que inflama o coração de menino. A mão muito magra, ossuda e trêmula do jovem eterniza o primeiro amor numa árvore qualquer de praça.

E eu, o prosador desesperançado, arranho um poema desusado: o amor é chama, posto que nos mata mais que inflama.

a mulher

Instantâneo de Luísa. Ela agoniza. Sobre a cama. Sob o silêncio assíduo de uma doença que mata. Lento e cínico como chiado perverso de gás letal na câmara dos sentenciados. Morta aos poucos. Aos poucos, os cabelos não estão mais em sua cabeça, desfeita a trama de uma bela costura. Frágil, pois que depenada continuamente pela dor. A morte desenha Luísa em bico de pena. Fios de Luísa sobre a cama.

Entro no quarto ansioso. Posso ouvir meus passos e minha respiração que insiste. Instantâneo de Luísa em meus olhos. Procuro aquela que conheci, nos olhos fundos de uma agonia. As pedras verdes de esmeralda estão lá. Perdidas nas órbitas desta mulher que morre. E a minha chama, eu reconheço, nesses olhos de mulher moribunda. Olhos da primeira paixão de um menino. Foi lá que a perdi. Nos olhos de Luísa.

Não me recordo bem sobre o que falamos naquele dia. Não importa. O prosador verborrágico cala-se, como se fosse um poeta conciso: o amor é poema proibido, quanto mais o poeta arrisca, menos decifra a vida.

o amor

Ainda posso sentir a mão feliz e adolescente descendo pelo dorso. Empenhada na tarefa de marcar, na casca difícil, a imortalidade do primeiro amor. Luísa sorri para mim e o seu olhar me olha, agudo como bicos de seios fartos e maternais, me alvejando. E melhora os meus olhos. E melhora o que sou. Luísa sorri, como só ela sabia. Como só o seu sorriso sabia ser. Meu. Como só aquela mulher sabia se entregar a um homem, sem que ao menos ele precisasse trepar com ela.

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