Thelma Guedes

Ilhúmbria

Desde pequena procurei
aquele que deveria ser o homem da minha vida

Busquei-o nos mais fracos
nos desdentados, nos meninos

Cacei-os entre os devassos, franzinos
covardes, ladrões, vingativos

Um homem que teria a instabilidade doce
dos que perdem sempre
não a rigidez dos perpétuos vencedores

O cansaço dos ínfimos
no lugar da incansável determinação dos grandes

Poderia ser um homem sem mãos
mas deveria ter os pés leves
para me acompanhar num tango

E a língua intensa
para me lamber inteira como sua cria

Um lambedor dançarino
perdido e perdedor das perdas mais encardidas

Magro, amarelo, alquebrado
De preferência doido, drogado e sem documentos

Pobre e esfomeado das coisas de tudo
numa fome irmã à minha própria fome

Pois eu queria um igual na dor
igualzinha a que eu sinto

Aprendi a procurá-lo nos castelos abandonados
nas praças, nos morros e manicômios

Me disseram que eu por lá o encontraria

Procurei na sujeira dos becos
dentro das latas de lixo
sob as pontes, nas filas de empregis, nos pesadelos
nos ônibus, nas catracas de trem, no limbo

Deixei recado nos postes mijados
por cachorros vagabundos

Na minha busca pelo pior dos homens
para ser pior com ele
aprendi a reconhecer o perfume dos ávidos

Cada vez mais, passei a desvelar os frascos
cheios de líquidos e odores

ocultos sob os prantos dos sofridos
lançados ao alto mar por náufragos perdidos
derramadas pelos corpos dos bêbados
entregues à sarjeta dos mendigos.

Descobri o perfume da dor
para reconhecer um homem
em seu desalento amigo

Sua pobreza e desamparo único
sua penumbra, sua ilha, sua solidão noturna

Rumei sem malas para ele
quando senti sua fragrância
acre rara lasciva

Chamei este perfume de “ilhúmbria”
como a um inseto não-catalogado e vítreo
uma terra afastada, um sentimento enjaulado
um susto revelado ou o inaudito grito dos mudos

Encontrei o perfume
E, no perfume, encontrei não um homem, mas todos
Lá estavam suas chagas, seu destempero e delírio

Pois a apaleada substância
é a condição das glândulas dos espécimes todos

A vida vive para produzir este cheiro
de carne viva

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