Thelma Guedes

Mãe tela do meu tapete

Aqui, duas versões da mesma mulher: minha mãe, dona Lucy. Ela se foi em abril. Deixou o silêncio, mas a certeza de que nunca deixará de estar aqui de algum jeito

mãe
tela do meu tapete
que falta me faltas no medo
não te escrevo
não te ouço nem pergunto
só te procuro agora
porque não durmo e preciso
da mama
da mão na cama
da nana
é medo é falta de sono
quas enão sonho não durmo
alerta não me deixo
sozinha piro fumo escorro
depois de perder o éden
o odor bom dos bafos de mãe seguros
tempos atávicos se passaram

e te procuro e te pergunto
onde estou no mundo
longe do teu braço gordo?
que cidade é aqui em mim?
que me afastei tanto
era lá a felicidade, não era?
lá antes
debaixo da tua carne
no vinco do teu vestido
mas e agora? que faço?
aqui, no circo frio do ventre estranho
sem ar sem água e sem o nosso umbigo antigo?

Comente no Facebook