Thelma Guedes

O Matador e o Poema

A mulher fez um esforço tremendo para andar. Cambaleando, quase se arrastando, procurou chegar à cama. Ela tinha sido baleada bem no umbigo. “No meio do meu umbigo, meio do meu centro criativo. Meu centro criativo.” Pensava e tentava sorrir enquanto, delirando de dor e febre, conseguia atingir a cama e deitar-se sobre o colchão macio. Pensou em escrever alguma das coisas que lhe passavam rápidas pela mente, mas não teve condições de se mover. “Meu umbigo está jorrando suas idéias”.  Teve vontade de dar uma gargalhada sonora, mas a dor muito forte não permitiu que risse. Ficou ali deitada bem quieta. Esperando morrer bem quietinha. Encolheu-se para que doesse menos. Isso adiantava pouco. A mulher não sabia que morrer doía tanto. Não pôde prever uma dor tão grande. Esperava a morte chegar. E, como ela não veio logo, Débora passou longo tempo sangrando e doendo sobre a velha colcha de chenille azul desbotado. Pensou em Madame Bovary que, como ela, não sabia como era difícil e doloroso morrer. Pensou em Goethe, que menosprezava esse tipo de suicídio, pois achava que o suicida devia, ele mesmo, executar o ato. Mas a mulher havia muito tempo estava se sentindo tão cansada… Tão só… Sem vontade de nada. Nem de organizar sua própria morte. Preferira encomendá-la a um especialista. Como se encomenda uma festa, um bolo, um vestido. Goethe iria perdoar-lhe o tom pouco heróico e nada poético da escolha de um suicídio por encomenda. Seu caso não era de covardia, mas de cansaço. Uma estafa infinita. E pelo menos ela não havia pedido para algum amigo fazer o serviço. Não, ela pagara, e bem caro, para um profissional experiente no ofício de matar. Débora, então, lembrou-se do suicídio de Pedro Nava. Ele era bem velho quando se matou. Um tiro no ouvido. Assinatura de próprio punho no orifício da audição. Nava escolheu o ouvido, talvez por ser lá o seu centro. O centro criativo dos homens devia mesmo ser em algum dos buracos da cabeça. Um centro criativo racional. Movido pelo seu logus erectus. Mas, o que lhe chamou mais a atenção foi o fato de que ele mesmo cometera o tiro suicida. É que certamente ele não estava tão cansado quanto ela.

A febre e a dor aumentaram muito. Mas Débora não tinha saída. Ela ia ter que esperar passar. Esperar morrer. E só podia esperar pensando. Acontece que ela estava muito cansada. Até para esperar. Até para pensar. E pensou na louça toda suja que estava na pia. “Pelo menos, se o matador tivesse me avisado antes de chegar, eu poderia ter lavado a louça e não ia morrer deixando a pia da cozinha tão suja.” Mas fazia parte do acordo ele aparecer sem aviso. E Felipe demorou mais de um ano para vir matá-la. Veio quando Débora achava que ele já tivesse desistido e ido embora com o dinheiro. Mas ele era mesmo um matador muito especial. A grande demora tinha o objetivo de fazer Débora esquecer-se ou duvidar do suicídio. Era esse o trato. Tentar fazê-la esquecer, para que tudo fosse quase inesperado. Quase como uma morte natural. Sem aviso. E Felipe chegou como um anjo bom e muito bem pago, para tirá-la da aflição que era aquela sua vida. Uma vida de não escrever mais.

Felipe era um jovem muito bonito. Bem jovem, alto, musculoso e imberbe. Cabelos cacheados e finos. Bem que ela teria gostado de despi-lo antes que ele atirasse em seu umbigo. Bem que ela teria gostado de ser amada por um homem tão jovem depois de tanto tempo sem amar ninguém. Sem ser amada por ninguém. Mas ele era um menino sério. Um anjo da morte compenetrado. Era tão diferente do que ela tinha imaginado antes de conhecê-lo… A verdade é que ele tinha uma educação invulgar para um matador de aluguel. Calado e discreto, era pouco afeito a demonstrações de força e violência. A voz do seu matador era suave e seus modos de vestir, de muito bom gosto. Imaginem só, ele viera matá-la de terno, cabelos molhados e escovados para trás. Um perfume delicado ao fundo, como uma música incidental e triste. Um matador sem anéis ou pulseiras de ouro. Não. Suas mãos másculas eram morenas, fortes e expressivas, sem nenhum enfeite. Unhas bem curtas, como Débora sempre gostara nos homens.

– Por que você quer morrer? – Ela ficou pensando na primeira vez que encontrou o rapaz e ele lhe fizera a pergunta.

– Por que você quer morrer?

– Não me interessa mais viver.

– Mas, por quê?

– Sou poeta.

– E o que é que tem de mal nisso?

– Sou poeta, mas não sei mais como escrever. Estou morta. Você não vê que já estou morta? Tenho medo. Além do mais, fiquei velha… Morrendo. Estou morrendo de solidão, frio e cansaço. Além das dores no corpo o tempo todo. Todas essas coisas não me largam mais.

– Por que não procura um médico?

– Você é o meu médico, sabia? Mas não se esqueça. É preciso que você atire no meu umbigo. Bem no centro. É de lá que vinha tudo de bom que não me vem mais. Esse maldito parou de funcionar. Meu umbigo não existe há muito tempo. Você precisa atirar nele. No centro dele. Ele não deixa que eu sinta. Por causa dele eu não sinto mais nada. Não amo. Não escrevo. Estou morta porque meu umbigo parou de funcionar.

– Você é louca. Bem louquinha mesmo. Mas eu vou fazer o serviço porque você sabe bem o que quer. E eu gosto das pessoas que sabem alguma coisa nesta droga de vida. Além do mais, você sofre quieta, sem chorar, sem fazer escândalo. Isso é sinal de que essa sua dor é mesmo forte. Mas a coisa vai ser cara.

– Eu pago o que você quiser. A minha dor é crônica. Irremediável, não é mesmo?

– Hem?

– Nada, meu bem.

Ele falou pouco, com aquela sua voz suave sumindo pra dentro da garganta. Débora pensou na voz dele e, mesmo morrendo, sentiu uma forte emoção, um desejo intenso de ver aquele homem mais uma vez. Seu corpo doente tremia e Débora sabia que estava desaparecendo. Apesar da dor, do sangue e do vômito que jorravam sem parar, uma sensação de liberdade surgiu, preenchendo aqueles momentos finais de sua vida. Afinal, estava conseguindo sentir de novo, emocionar-se, desejar alguém e ter vontade de escrever. Estava tendo idéias. Com a dor e a temperatura, cada minuto aumentava também a vontade de rever o matador profissional. O seu querido matador.

Um último e grande esforço permitiu que ela alcançasse caneta e papel na mesinha de cabeceira e escrevesse um último poema. Um pequeno canto do cisne para Felipe.

Dois dias depois, Felipe acordou cedo como de costume. Correu durante uma hora no parque do Ibirapuera. Tomou banho e um saudável café da manhã. Antes de consultar a agenda do dia, fez algumas ligações: para seu agente, para sua mãe e para a garota que iria encontrar à noite. Depois se vestiu e leu o jornal. No jornal uma notícia chamou sua atenção: uma mulher, uma poeta em fim de carreira, foi encontrada morta. Tudo indicava que se matara com um tiro no próprio umbigo. Ao lado do corpo, encontraram um bilhete que poderia até ser seu último poema. A polícia estava tentando decifrar a mensagem, que talvez esclarecesse a causa do suicídio. Sabiam apenas que era dedicado a um tal de Felipe.

O matador não conseguiu deixar de pensar na imagem da mulher que havia assassinado. Feia, com os cabelos desarranjados e vermelhos caindo-lhe sobre os olhos. Um corpo gordo, desleixado e um copo cheio de uma bebida amarela pendurado entre os dedos. Mas a boca era pequena e aflita, cheia de desespero. E ele, por um segundo, tinha tido uma vontade estranha de beijá-la antes de deixá-la morrendo.

Naquele dia Felipe saiu de casa suspirando fundo e, pela primeira vez, parecia arrependido.

Comente no Facebook