Thelma Guedes

O mistério da velha e da menina

Quando eu era menina, sentia que havia uma velha dentro de mim. Era ela que chorava quando lia os textos de Clarice e os poemas de Rimbaud. Era ela que tinha medo da morte e me despertava à noite, cheia de pavor. Ela sentia a dor do mundo. E quase todos os dias, perguntava-me sobre o sentido da existência e do desamparo dos seres.

Agora, depois de já ter ultrapassado a metade do tempo que um ser humano pode chegar – quando a velhice se avizinha –, é a menina dentro da alma da mulher madura que teima em se pronunciar. E, apesar das tragédias humanas e ambientais que estão a anunciar o final dos tempos, é ela que me faz dormir bem todas as noites e me acorda cedo, para me levar a um passeio pelas alamedas da cidade louca. Eu ando tranqüila sob o sol, protegida pela menina sorridente. E releio sem culpas e com menos lágrimas os textos e poemas que tanto me angustiavam, quando eu era uma menina de verdade.

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