Thelma Guedes

O Não-Eu e a Não-Obra Minha

Hoje em dia grande parte das pessoas tem um desejo intenso pela fama. São muitos os que querem ser “Alguém”, se destacar na multidão, ser “Um” entre milhões. Talvez para deixar algum rastro de sua passagem pela Terra. Algo de si para ser lembrado pelos homens do futuro. Algo que ficará, que não morrerá. Ainda que esse algo seja apenas uma imagem sorridente num registro fotográfico de uma revista de famosos ou um vídeo na internet com o sujeito cantando no chuveiro (ou fazendo coisas mais ou menos nobres). A impressão é de que esse desejo seja menos pelo reconhecimento do talento e mais pela projeção pública pura e simples. O desejo não pela Arte, mas pela condição notória e notável do Artista. Daí que muitos acabam querendo ser artistas só para ficarem famosos. Sem nutrir amor algum pela Arte. Neste caso a Arte seria apenas um trampolim para a Fama. E a internet é um grande fomentador do acesso rápido ao “ser famoso”, “ser alguém especial”, ainda que seja por um breve momento.

Posso estar enganada, mas a impressão que tenho é de que, ao mesmo tempo em que tem tirado pessoas comuns do anonimato e dado a elas a tão sonhada fama – que antes era privilégio principalmente dos artistas -, a internet tem trazido de volta algo que era comum num passado distante: a “desimportância” da autoria do objeto artístico. A autoria anônima. É comum que textos, imagens, músicas sejam veiculados na internet sem que se forneça a informação de sua autoria ou com essa informação totalmente errada. Muitos internautas, por exemplo, escrevem textos e postam sem assiná-los, ou assinando-os com nomes de autores famosos. E ninguém parece se importar muito com isso. A prática vai crescendo, se difundindo. Parece que – pelo menos na internet – não tem grande importância quem seja o artista por trás da obra.

O que isso quer dizer? Uma onda passageira? Ou o começo de uma nova forma de lidar com a Arte e com o Artista? Modo que muito se assemelha a um momento do mundo ocidental em que a autoria esteve envolta numa aura nebulosa ou de mistério. Se esta tendência é algo que veio para ficar, só o tempo saberá dizer. E também se isso será bom para a Arte, para o Artista e para a sociedade. Contudo é curioso e intrigante pensar um futuro em que a Arte viva sem que seu criador seja conhecido. Quem e como seria eu numa sociedade assim? Eu seria mais eu, porque minha relação com minha arte seria mais forte e verdadeira, sem a mediação da troca por algum valor material ou por prestígio? Ou um ser sem lugar no mundo? Um “não-eu”, destituído da “não-obra-minha”?

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