Thelma Guedes

O ponto

Tudo começa num ponto. Um pingo de tinta no papel. O toque pontual de um dedo no teclado. O breve toque do calcanhar no assoalho pela manhã. A primeira gota de chuva. O primeiro sopro. O primeiro beijo. A primeira nota de um concerto. Um ponto pendurado na corda de uma partitura. A cabeça de um bebê despontando na saída. Uma chegada. Um ponto de partida. Um começo.

 

 

Um ponto esquecido na cúpula do universo, se não for poeira na lente de um telescópio, será um corpo celeste. Se estiver cheio de luz e pressão, estará a ponto de explodir e, quem sabe, pronto para criar o mundo.

Assim, cada ponto, por mais casual, pode ser determinante. Um núcleo coagulado de energia criativa, prestes a transbordar de seu centro e se tornar uma cadeira de reações. Capaz de começar mundos, mas também de destruí-los, graças  a seus excessos de ponto cheio.

Um ponto pode estar carregado de tudo. Pesado e gordo. Inundado até do que não se vê ou não se escuta. Prenhe de medo. Ou de culpa, por exemplo.

***

Sim, foi o peso da culpa, no ponto escuro do olho daquele pinto que me chamou atenção e me atraiu até ele. A mesma carga impiedosa que trago comigo, que sempre me confundiu. E me tirou a alegria. E me elege. E me incrimina todos os dias.

“Como eu, és uma culpada”, o ponto negro no olho do pinto parecia me dizer.

Era mesmo um punhal o centro do olho do bicho, ferindo a sua alma penosa, mas brilhando e cravando também a minha. Ele me chamou e eu, obediente que sou, fui até ele. Entrei na pequena loja rapidamente e comprei o pinto de olhos culpados.

Levei-o dali depressa, para esconder de todos o terror de um sentimento despudorado e insolente que o pinto exibia e que me flagrava em ato. Já que também era minha culpa.

Cheguei em casa com o pinto dentro da bolsa. Tirei-o de lá sufocado. Dei-lhe água. Pintos bebem água, pois não? Bebem, porque, mesmo tremendo muito, e ainda que míope (miopia própria de pintos), ele se aproximou da água e bebeu, sorvendo-o lentamente pela goela levantada ao ar. Quando ele estava mais calmo, esfarelei uma fatia de pão e lhe ofereci as migalhas. O pinto aceitou e agradeceu.

É verdade, ele agradeceu. Não batendo asinhas ou piando como os pintos normais fariam. Não, ele aproximou sua carinha aguda e pulsante da minha e disse, no mesmo tom amarelo de suas asas: “Obrigada”. Depois, beliscou meu rosto com o bico num beijo impossível. E se apresentou: “Prazer, sou Clarice”.

Eu desmaiei.

***

Não sei quanto tempo permaneci desacordada, mas quando voltei do desmaio Clarice já era uma galinha gorda, saudável e acostumada à minha casa. Usava saia plissada, unhas pintadas e, diante de um espelho, se maquiava, contornando os olhinhos amendoados com um lápis preto de maquiagem que ela encontrara na minha cômoda.

Era uma galinha vaidosa. Mas, por trás da vaidade, a culpa. No centro dos olhos, lá estavam – eu podia ver – as duas meninas culpadas de Clarice.

Quando me viu acordar, ela começou a girar em torno de meu corpo tombado no chão: “Prrrrrr… Prrrr… Eu não queria te assustar”. Não respondi a princípio, ainda intimidada pela Clarice absurda e arregalada que falava comigo.

Num esforço descomunal, tomei fôlego e perguntei:

“Você pode falar?”

“Posso. E posso escrever também. Tentei desaprender, mas não consegui.”

“Mas.. você é uma galinha!”

“E também uma escritora culpada. Esta é minha sina e meu crime.”

“Crime? Que crime?”

“Não finja. Você sabe. Eu te falei dele.”

“Eu devo estar ficando louca.”

“Ah, agora sim! Muito bem! Já está começando a confessar. Por que não diz a verdade? Você me trouxe, porque sabiq ue eu te ajudaria nisso. Pode chorar agora, meu bem. Eu também choro às vezes, isso é normal.”

“O que aconteceu? Eu trouxe um pinto pra casa, não uma galinha.”

“Um ovo, um pinto, uma galinha, uma escritora, é tudo a mesma coisa. Ovos quebram. Pintos, galinhas e escritoras morrem. A diferença é que as escritoras sabem. Eu morri, mas continuo me sentindo culpada, mesmo sendo uma galinha velha e destemida.”

Depois de me encarar um instante, Clarice emendou:

“Não quer me levar para a panela agora?”

“Não estou entendendo nada.”

“Você nunca me entendeu, pobrezinha. Mesmo nos momentos em que mais me amou, não entendeu nada do que eu escrevia. Mas não é tão grave assim: eu também não estou entendendo o que estou dizendo.”

“Espera aí… Quer dizer que.. você é mesmo… Ela? A Clarice? Aquela Clarice?”

***

Os anos se passaram sem novidades. Até que um dia acordei e a galinha-Clarice não estava mais em casa. Em seu lugar, ao descer da cama de manhã, naquele ponto em que a ponta do calcanhar toca levemente o assoalho frio, avistei uma grande e feia barata me olhando dura e pedindo com sua culpa que eu acabasse com ela.

Ah, eu já conhecia aquela história que insistia em se repetir. E agora comigo! Não! Não! Não! Não pode ser! Gritei apavorada, porque aquilo era tudo o que eu não queria de Clarice. Aquele era seu legado que menos me apetecia. O único enredo que a mim não caberia. Um desenlace que eu não comeria.

Como ocorrera com a outra protagonista, a simples ideia de mastigar a hóstia-barata me transfigurou. Já que o horror e o asco começaram a se confundir com um desejo intenso e sem sentido, dirigido à estranha comunhão com aquele ser ínfimo mas imundo. Meu Deus! Ao desejar aquilo, eu quase não me reconhecia.

E, apesar de ser tão similar à outra trama, nessa não era uma massa de barata que se exibia em dádiva. Não! Era uma barata-Clarice que pedia para que eu a devorasse viva.

Bravateando o poder de um ser que intimida os homens, por ser tão despudorada e cheia de vida interior – branca e límpida tal miolo de pão -, Clarice me queria.

Eu a queria também, é certo. Na verdade, sempre quis ser como ela: corajosa, sem pudor, vigorosa e pura. Mas cerrar os dentes sobre seu corpo craquejante de inseto e depois engoli-la… Ah, não… Isso era muito para mim! Era ir longe demais!

Tremendo muito, perguntei a ela se não bastaria esmagá-la com o pé. Ou dar-lhe uma boa chinelada. Quem sabe, deixar-lhe um delicioso veneno à noite, a fim de engessá-la e transformá-la numa maravilhosa escultura?

Em resposta, Clarice, o inseto doce de olhos suplicantes, subiu pela minha perna até a altura do meu rosto e tocou delicadamente com suas antenas os meus lábios, num beijo absurdo.

Era um pedido. E eu não tive saída. Fechei, então, os olhos para me entregar à Coisa. Tomei coragem e abri inteiramente a boca. Fiquei parada, suando, esperando que a barata entrasse e tocasse a minha língua.

Mas nada aconteceu. Eu não comi a barata.

Abri os olhos. Só então percebi que havia sido apenas um teste. Ela queria saber até onde eu iria por ela. Até onde estaria disposta a dar-me em sacrifício.

Ela sorriu, satisfeita, parecendo bastante aliviada. O semblante inofensivo fez com que parecesse mais com a dona baratinha das histórias infantis.

E a feia barata foi embora para sempre.

Nãos sem antes dizer com sua vozinha fina e beatificada: “Obrigada, meu amor.” Eu também pude amá-la nessa despedida. Sentindo a dor e a vida do que é vivo e dói.

Doí a falta de Clarice por muitos anos ainda. Até ver saltar dentro de mim aquilo que seria a minha própria cria. Um ponto preto e nebuloso, largado pela minha boca na minha barriga.

Mesmo que sua compleição e temperamento fossem ainda completamente desconhecidos para mim, ao menos, ele estava pronto para cumprir seu destino de ponto cheio: aniquilar ou gerar a vida.

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