Thelma Guedes

Ofélia

O que é a felicidade? Mais do que a satisfação, alegria, contentamento. Mais, muito mais. Duradoura. Infinita. Pelo menos, é o que se espera dela. Pois se for efêmera, não terá sido a verdadeira.

Os homens vivem por ela, em nome dela, procurando-a como se procura aquilo que não existe. Caçando-a como um tesouro perdido.

A felicidade pode ser um lugar, uma cidade ou um país que não há no mapa. Pode estar resumida na frase final de um conto de fadas ou de uma novela de televisão. Todos querem o “viveram felizes para sempre”.

O desejo de encontrá-la tornou-se uma obsessão para os homens. Seu significado confunde-se com o da própria utopia, da quimera, do sonho impossível. Algumas pessoas tentam encontrá-la na glória, outros acham que ela pode estar no amor. E há ainda aqueles que vislumbram no dinheiro a possibilidade de ser feliz.

Embora a felicidade ocupe cada segundo de nossos pensamentos e intenções; e o desejo por ela seja a centelha que nos leva à ebulição, agitando o sangue e fazendo aflorar a vida em nossas veias; e seja o sonho da felicidade que alimente nossos corações; e seja essa utopia que nutre nossa arte e imaginação; ainda assim cada vez é maior o número de pessoas que não deixam de acreditar na sua existência.

Mas eu sei que ela existe. Sei que a felicidade é mais simples do que se possa imaginar. Eterna, sim. Difícil, às vezes. Mas possível, alcançável. Eu a conheço. Sou um dos poucos felizardos que, em vez de procurá-la, levo-a aos outros.

É certo que algumas vezes ela escapa de mim. Mas isso não demora muito tempo. Porque, se eu não posso viver sem a felicidade, a felicidade também não pode viver sem mim.

Eu embaralho seu nome com outro, resumindo-a neste outro nome. Dando-lhe mais que um novo nome, um sentido maior para ela e para a minha vida. A felicidade é então o “prazer”. Prazer que sinto. Prazer que sinto todas as vezes que piso no palco.

Eu sou ator de teatro. E adoro a minha profissão.

Mas sou muito feio. Portanto, nunca poderia ser galã de televisão. Mas quem quer ser galã de telenovela? Com certeza, eu não.

Sou baixinho, narigudo, tenho a boca torta e uma perna menor que a outra, o que me faz mancar um pouco. Mas não precisam ter pena de mim, porque, como já disse, sou um homem muito feliz. Talvez o mais feliz do mundo.

De fato, acho que minha feiúra só me tem feito bem. Para terem uma ideia, só vivi grandes papéis no teatro: já fui o Corcunda de Notre Dame, o Homem-elefante, Dr. Hyde, Toulouse-Lautrec, o Nariz de Gogol, e uma versão sadomasoquista de Romeu, numa boate gay.

Quando algum diretor precisa de um ator feio, lembra logo de mim. Sou convidado a atuar. Nem sei se pelo meu talento, mas com certeza pelo que represento de economia em relação à maquiagem e efeitos especiais para a produção.

Tudo bem, posso estar exagerando um pouco. Mas… sem falsa modéstia, sou feio pra caralho. E sou muito bom no que faço. Por isso, tenho meu lugar assegurado no cenário do teatro nacional.

Como podem ver, estou no meio de um ensaio da peça Ricardo III. Evidentemente, represento o rei malvado. E parece mesmo que Shakespeare escreveu o texto pensando em mim. Quer dizer, em parte. Sou feio e inteligente como o tal Ricardo, talvez tão chato quanto. Mas não tão mau. Nem tenho tanta sede de poder. Talvez porque já tenha tudo o que quero.

Na verdade, eu tinha.

***

Eu era feliz, até aquela mulher aparecer uma noite, no meu camarim, depois de uma apresentação, em que eu brilhara como Ricardo III, o mau, o maldito.

Estava exausto e não queria receber ninguém. Mas não pude impedir a sua entrada, tais foram a surpresa e confusão mental que ela me causou.

Algo quebrou dentro de mim quando ela entrou e abriu o sorriso cândido. Absolutamente imbecil. A partir daquele momento, a felicidade me abandonou para sempre e por completo.

Ela era linda. Linda, vazia e iluminada como as coisas que são completas, que não trazem interrogações. Perfeita. Simétrica. Sem faltas ou sobras. Ela entrou tão suavemente, como se não trouxesse com ela o peso da alma. Uma mulher sem alma. Nenhum fio fora do lugar, nenhum amassado na roupa, nenhum arranhão.

E na voz, nenhuma nota fora do lugar. Não que ela dissesse coisas inteligentes. Não, longe disso. Mas as banalidades que a moça despejou sobre mim pareceram mais perfeitas do que as mais belas passagens do autor cuja peça eu acabara de representar.

Ela entrou se dizendo muito emocionada, afirmando que era minha fã fervorosa. Adorava todas as peças que eu representara. Ela havia assistido a todas. Mas nunca antes tivera coragem de vir falar comigo.

Por que então ela decidiu falar com ele aquele dia? Por que decidiu tirar a ordem do Universo? Melhor seria que ela desse ré, meia volta e eu fingisse que eu não a tinha visto entrar no meu camarim.

Como ela tinha parado de falar e esperava algo de mim, pois tinha nas mãos um bloquinho e uma caneta que me oferecia, eu lhe dei como resposta uma pergunta: “Como é seu nome?”

Julgando que a pergunta estivesse ligada ao pedido do autógrafo, ela falou orgulhosa: Ofélia… E completou com um risinho nervoso, doce, que era o mesmo nome da personagem de Hamlet. Mas eu sabia que não era e nunca seria o rei da Dinamarca. Era Ricardo, o rei feioso, manco e cheio de inveja. O que nunca amara nem havia sido amado.

Perguntei a ela o que deveria escrever no papel que ela me estendera. Ela titubeou. Pareceu pensar que não devia dizer o que desejava que eu escrevesse. Mordeu o lábio, fazendo que meu desejo acendesse e o pau levantasse, involuntário.

Disfarcei o mal-estar provocado pela fome da minha vontade desviando os olhos. Abaixei a cabeça e escrevi o mais rápido que pude a dedicatória, tendo o cuidado de ser o mais sóbrio e comedido com ela, sem lhe tirar de todo a esperança.

Na verdade, eu precisava me certificar de que ela não estava zombando de mim. Como uma mulher tão bonita podia se dizer tão admirada com algo que alguém tão feio como eu fazia? Como ela podia ser tão reverente?

Ao ler a minha dedicatória, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela me abraçou, molhando minha camisa.

Eu havia escrito uma fala de Laertes para a irmã querida: “Cuidado, irmã! Cuidado, Ofélia amiga! Fica na retaguarda dos anseios, a coberto dos botes dos desejos. Já prodigalidade é uma virgem revelar a beleza à própria lua. Da calúnia a virtude não se livra. Muitas vezes, o verme estraga as flores primaveris, bem antes de se abrirem. No orvalho e na manhã da mocidade o vento contagioso é mais nocivo. Sê cautelosa; o medo é amparo certo.”

De fato, em verdade, quem tremia de medo era eu. Medo da moça, do desequilíbrio, da loucura, que essa Ofélia tão oferecida provocava num pobre Ricardo como eu, tão feio e faminto do exercício do amor.

Quando ela saiu do abraço, a maquiagem dos olhos borrada a fizeram mais linda e perfeita ainda. Eu, então, disse que ela precisava ir embora, para eu tomar um banho, me trocar e ir para casa.

Mas ela não se abateu com a frieza das minhas palavras. E disse segura:

“Tô te esperando lá fora.”

Aquelas não eram as mais belas palavras da literatura, muito menos as de uma suicida. Mas, como a felicidade já não era mais possível, eu disse sim a ela.

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