Thelma Guedes

Onde estão meus escravos?

Da infância, tenho algumas lembranças vívidas, que despertam uma saudade esquisita. Saudade do que sei que nunca mais vou ver; de onde sei que nunca mais vou estar. O mais estranho é saber que algumas pessoas que estavam lá, eu nunca mais vou sequer saber do que foi feito delas. Porque, mesmo que eu vá encontrá-las algum dia, elas não serão elas mais.

Uma das cenas que ficaram na memória é de uma brincadeira da qual eu participava, em companhia de meninos da vizinhança. Como muitas vezes eu era a única garota do grupo, a gente costumava brincar de Cleópatra. A brincadeira era assim: Eu ficava sobre uma grande folha seca de palmeira, enquanto o grupo de garotos me puxava, como se fossem meus escravos, levando sua rainha numa embarcação. Eu ficava imóvel, numa posição que eu achava que devia ser de rainha egípcia, imitando a Elizabeth Taylor, muito provavelmente… Eles me levavam e gritavam, em uníssono: “Cleópatra, a rainha do Nilo! Cleópatra, a rainha do Nilo!”.

A brincadeira acabou quando, um dia, enquanto eles me levavam, empolgados, eu fui rasgando a parte superior do pé no chão, por um buraco da folha de palmeira. Meu pé ficou bem ferido. E meus pais me proibiram de brincar com aqueles meninos, que eles achavam ser muito selvagens.

Perdi meus escravos e meu reino de uma vez só. E hoje me perguntei: onde será que andam eles? Nem lembro dos rostos deles… Mas a cicatriz no meu pé ficou e me diz que eu não sonhei. Aquilo aconteceu sim.

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