Thelma Guedes

Penélope

Sim porque eu nunca fiz uma coisa dessas antes acordei e a coisa veio veio como serpente súbita e temerária senti ainda no início da manhã na cama enquanto me enrolava com preguiça entre as cobertas era uma ideia um veneno que escorreu do sonho seda branca e irremediável invadiu o azedume da minha boca sonolenta a poderosa poção grudou nos meus dentes e deu gosto de novidade e susto àquela manhã fria eu abri os olhos e procurei não engolir a saliva contaminada pelo sonho de ontem desvencilhei-me do calor confortável levantei-me da cama de um salto e corri pro banheiro fechei a porta com cuidado para ele não ouvir a minha agitação e alcancei a pia antes mesmo de me sentar no vaso para esvaziar a bexiga estava decidida a distrair a ideia expulsando ela vigorosamente da gengiva e das cavidades dentárias com a escova de dentes ultra macia queria mesmo uma escova dura pra diluir o perigo que era também um desejo mas não estava devidamente revelado eu não sabia onde o chamado ia me levar e por isso temia pelo destino daquele dia o contato da pele do rosto com a água gelada da torneira excitou ainda mais a serpente insistente eu desviei o olhar do espelho enquanto a mão direita trabalhava com determinação pela boca queria esconder de meus olhos a ideia que dominava o pensamento e acreditei sinceramente que podia fugir dos desígnios da ambição secretíssima da serpente mas quando cuspi na bacia branca vi a água combinada com espuma e saliva envenenadas descendo rapidamente pelo buraco da pia só então compreendi que era tarde já estava tomada pela ideia caí como um patinho na armadilha enredada pela noite bem dormida eu era agora uma alice estúpida descendo pelo ralo ao meu fundo poço de um enigma antigo em breve ia encontrar o coelho branco e íntimo de meu desassossego como um coelho tive pressa procurei a saída do banheiro escapando ofegante pela única porta pude até sentir a trepidação dos meus passos arreganhados enquanto caminhava para a cozinha um coelho? não um coelho não eu era uma cabrita arrebitada de ancas ansiosas querendo logo aquela coisa quente que viria e que eu nem sabia direito a forma que tenha um bom dia, o marido que se chamava José me sorriu sincero na cozinha bom dia eu respondi ao afeto do espécime macho bonito e comum que beijava meus lábios de mulher habitual mas eu não gostei quando senti que o café cheirava como todos os dias espocando casto pelo bico da cafeteira italiana como se aquela fosse uma manhã igual às outras e tremi de frio me sentindo ferida pela banalidade da mesa posta sorri fingida sem encarar o meu homem ergueu a xícara quente e eu levei o café até a boca procurando aparentar a calma dos que não têm culpa meu objetivo era esconder do homem a ideia-serpente que acalentava no seio pois àquela altura eu já era afetuosa e maternal com a víbora já podia imaginar ela vestindo touca chupeta roupa branca e rendada mergulhada por mãos santas em pia batismal uma serpente abençoada mas sabia que se tremesse ruborizasse ou engasgasse diante dele eu tiraria a manhã de sua ordem cósmica o homem flagraria o projeto incomum a ideia nova que apenas começava a ser gerada em mim como um feto ínfima e quebradiça eu me comportei muito bem quase verdadeiramente amena e plácida com uma obediência invejável digna da pessoa diária que sempre fui até ali não queria que o homem não desconfiasse de minha intenção à porta da saída ele se despediu o marido com um beijo simples ingênuo corrido e corriqueiro como são os beijos das despedidas matinais entre casais dei uma desculpa qualquer para não sair com ele para o trabalho estava indisposta é isso mesmo as palavras eram comuns e de acordo com o esperado o homem pareceu não ter percebido a traição e saiu afetuoso te cuida meu amor vou me cuidar vou me cuidar mas assim que a chave girou na fechadura deixei a sala correndo e tomei o rumo de meu desejo o amor era o quarto agora único cômodo possível para trocar a pele ofídica e regenerar a fome desconhecida eu era uma mulher cautelosa e entrei como uma submissa entra numa igreja coberta pelo cinismo da pureza e pelo véu das santas cautela silêncio sobriedade resignação oferendas que eu trazia para o sacrifício preparei com esmero sádico o cenário de minha imolação as janelas fechadas e a cama amassada como ninho mas o espelho grande eu removi do prego atrás da porta e recostado à parede diante da cama também tranquei o quarto faminta pela solidão e intimidade que um verdadeiro ato de amor requer sentada na cama me coloquei em frente ao espelho corajosa comecei a me despir primeiro retirei as meias brancas de algodão depois foi a vez da parte superior do pijama botão por botão movimentei as mãos rumo à nudez sem pestanejar sem dúvidas de que aquele deveria ser o primeiro passo para o amor apesar do frio eu era ágil quando tirei as calças floridas e ridículas do pijama de flanela agora só faltava a calcinha branca e um pouco úmida no fundo retirei e eu estava nua pronta avistei minha imagem e vi que era eu de novo aquele eu o mesmo rosto perdido e escondido pelas plumagens dos anos tantas vezes avistado nos espelhos que tivera mas sempre com pressa e não com a intenção de amor de agora com o olhar incógnito de uma galinha velha e responsável choquei a atenção sobre a imagem querida tentando aquecer a pobre e solitária criatura no espelho tremia pelada fragilíssima depenada como se estivesse prestes a ser temperada cozida e comida e estava amar-se desde o primeiro fio eletrificado que se destacava do couro cabeludo primeiro mandamento a ser obedecido tentei amar a palha mais despenteada o rebento menos agradado pelos pentes e escovas de cabelo do mundo teve compaixão pelo desmantelo dos fios mais incompreendidos do meu cabelo denso e feminino desejei uma língua batráquia capaz de subir na cabeça para lamber a mim mesma como cria contentei-me em tocar os cabelos aninhei as palmas das mãos sobre as mechas soltas acomodando-as às irmãs comportadas acalmando-as completamente terna como só uma mãe faria mas os cabelos não corresponderam ao amor dedicado a que eu me empenhava indiferentes sob a franja uma testa ossuda mãos e olhar em comunhão procuraram o amor na testa no espelho o meu gesto sobre o osso frontal da face me lembrou as febres infantis incontáveis e resplandescentes sorri ao revisitar as milhares de vezes em que a mão materna atenta e preocupada me avaliara febre sarampo catapora rubéola intoxicação senti a minha própria mão como uma mãe improvisada testando a temperatura tentei amar a testa adulta e febril mas perguntei em sobressalto se estaria nela a resposta à pergunta de minha desilusão a testa não respondeu muda e dura como os muros são tudo escureceu então porque os meus olhos se fecharam lentes mecânicas protegendo-me da investida dos dedos pudicos cegos formavam um par escuro e inacessível porque nem eu seria capaz de recuperar e salvá-los de todas as lágrimas perdidas dos rostos que nunca mais veriam a visão dos fantasmas não lhes era permitida retirei os dedos e só então pude abrir os olhos novamente eles me encararam no espelho eram úmidos amendoados e tristes naquele dia estavam mais opacos do que de costume derramados num caldo frio de dor o que silenciavam? que dor interminável seria aquela que sofriam? eu o perscrutei sem pressa cheguei a amá-los compadecida mas o amor era insuficiente para que sobrevivessem ao rito ambos recusaram a minha intenção de abaixo a boca se oferecia vermelha e macia era uma carne viva grande e glutona engolidora feliz porque os dentes bons ainda mordiam o pescoço do homem quase sanguinários gostei de ver a minha boca no espelho meu pedaço mais bonito sorria porque era uma boca que trazia gostos e texturas antigas um passado de muitos sorvetes e paus salgada por batatinhas pipocas línguas várias vaginas sã e quase completa mas faltava algo nela e foi a própria boca minha que sussurrou tagarela uma terrível delação era uma boca que nunca beijara filhos nunca beijara filhos nunca beijara filhos eu fechei os ouvidos mas o mal já estava feito e eu entendi que o projeto de amor estava me levando para um sítio perigoso no espelho a imagem de uma fêmea esfomeada que agora desejava o amor físico a entrega ao prazer sempre fora um consolo à impossibilidade dos filhos foi então que sob o murmúrio de gritos e buzinas que vinham da rua eu busquei os seios eram macios simétricos e atrevidos e eu sorri porque ainda estavam erguidos apesar dos meus 15 mil dias o olhar dos mamilos sobressaía furando as mãos que os desenhavam com abnegado esmero os acariciei entre os dedos recordando-me do quanto sempre foram queridos seios lambidos mordidos e abocanhados seios saciados amei os seios quase frenética mas não pude concluir o intuito do desejo pois de minha barriga a serpente sibilou fria jamais os sugaram filhos jamais os sugaram filhos impossível continuar pois eu era uma perplexa os dedos correram a afagar a barriga a maciez dos intestinos procuravam me enganar filhos virão um dia me disseram tentando ser amigos mas eu queria a verdade ao abrir bem as pernas me senti infantil já que incapaz de defender esse território dos piores usurpadores a infertilidade e a morte o chamado da serpente foi o último eu sabia pois nunca seria digna nunca seria digna nunca seria digna à indigna apenas o direito à descida aos mortos para vasculhar a ossada humana e reconhecer os sinais de antepassados chorei no seio de todas as mulheres da família perdão queridas terminaria ali o mundo no buraco de minha vagina oca ainda procurava a esperança nascida no sonho que eu sonhei com o filho entre braços imagináveis o tive e a intenção de amor se consumava plena a vagina vista daquele ângulo era agora um ser risível movimentando-se num vai-vém que lembrava um rio mas era apenas uma esperança vã que se pronunciava eu desisti da intenção do amor impossível continuei a ouvir vinda de fora a vida que insistia sim um cão latiu uma menina cantou alto sim panelas caíram e os motores roncaram na avenida longe não os berros do mundo não parariam por causa das minhas lágrimas não eu me enrodilhei não as pernas escancaradas não as mãos afundadas no vazio entregues à verdadeira face do meu corpo infértil não não não eu não era não a mim não fora dado não eu não era eu não tivera eu era Não.

Comente no Facebook