Thelma Guedes

Deixei um poema no chuveiro

deixei um poema no chuveiro
parecia bom o danado
limpinho escorregadio lavado
com cheiro de alfazema
do sabonete granado

não deu nem tempo
de ver direito a cara do sujeito
passou pelo cabelo feito raio
e foi pro abismo liso e condicionado

juntou-se a outros detritos
fios de escritos embaralhados
tesouros em meu íntimo mar, encalhados
mar de textos não lembrados

só sei que começava com a palavra…
que palavra era mesmo?
uma locução densa plena peculiar
numa beleza que puxava outra e outra e mais uma
num arranjo magnífico insólito admirável

tanta excelência e singularidade ele tinha
que comecei a me enxugar afobada
mas antes de pôr os pés no assoalho
ainda nua úmida tremendo
o poema já não era meu

nunca tinha sido poema o infeliz
e lá se foi a quimera pro ralo
cadáver sem ter nascido
lá foi ele pro cemitério dos desnecessários

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